Thursday, March 23, 2006

Deficiente visual é professor de música



Cego desde menino, no interior de Goiás, morador do Gama virou músico, fabrica flautas de taboca e quer viver da própria arte. Além de dar aulas, ele pretende vender os instrumentos que confecciona

Aos 7 anos de idade, uma brincadeira tirou o brilho dos olhos do menino. Por chamar um homem de barbeiro – o moço era conhecido na cidade como mau motorista, tinha derrubado muros e, por isso, foi apelidado como tal –, o menino levou do rapaz, então com 21 anos, “o barbeiro”, uma pedrada no olho esquerdo. Naquela hora, perdeu a visão. Ainda tentou vir para Brasília, mas a viagem, da distante São Domingos, em Goiás, até aqui, demorou sete dias. Era 1974.

No Hospital de Base, não havia mais o que fazer. Uma infecção, que tempos depois atrofiaria todo o nervo ótico, impediu qualquer procedimento. O menino perdera a visão do olho esquerdo. Aos 7 anos, ele chorou pela primeira vez. E foi um choro de dor. Um lamento profundo.

Mas o pior ainda estava por vir. Aos poucos, a visão do olho direito também começou a ser afetada. A cada dia o menino enxergava menos. Aos 10 anos, veio a cegueira de vez. A luz nunca mais entrou pela sua retina. Uma pedrada, de um homem impaciente e despreparado para aceitar brincadeiras, interrompeu e alterou para sempre todos os sonhos do menino. Ele chorou pela segunda vez. E novamente foi um choro de dor e desalento. “A última coisa que lembro ter enxergado foi o rio da minha cidade, onde brincava. Isso ficou na minha memória. Quando quero me lembrar da infância, é essa imagem que guardei”, conta, emocionado, Jorge Luís Gonçalves da Silva, hoje um homem de 38 anos.

Aos 10 anos de idade, com cegueira total e irreversível, o menino se deparou com a depressão. Ele nem sabia que a doença tinha esse nome. Tampouco a família. “Era uma tristeza profunda. Perdi a graça pela vida. Só chorava. O meu sonho era ir para a escola, mas cego não poderia mais. E eu já sabia ler e escrever. Tinha aprendido sozinho.”

A família do menino resolveu mandá-lo para Brasília. Aqui, aos 13 anos, ele foi matriculado numa escola especial para cegos. Aprendeu braile. Surpreendeu-se com tanta descoberta. Logo, foi matriculado numa escola de ensino regular. Aprendia as coisas rapidamente. O menino crescia. Para amenizar a solidão, interessou-se por música. Aprendeu, sozinho, a tocar violão. Depois, flauta. Os dias ficaram menos sombrios. A solidão, menos pesada.

Mas ele precisava sobreviver. As aulas de violão que dava não lhe garantiriam a sobrevivência. Estudou. Prestou concurso para atendente de telecomunicação. Um dia, com, emprego fixo, casou-se. Teve três filhos com a namorada que conheceu nas aulas de violão. Ela era aluna dele. Estão juntos há 12 anos. “Ele é o orgulho da nossa família. Me ajuda muito na criação dos nossos filhos”, elogia a mulher, Jacinta Gonçalves, de 36 anos.

Novos rumos
Há oito anos, aconteceu uma reviravolta na vida de Jorge. Uma depressão o levou a deixar o emprego. Foi aposentado, aos 30 anos, por invalidez. A família, agora mulher e três filhos, e a música salvaram o rapaz. Para ocupar-se, ajudava nas tarefas de casa e nos deveres escolares das crianças. E tocava violão e flauta. “A música me acalma e me fascina” diz.

Um dia, Jorge teve uma idéia. Por que não fazer um som mais suave, mais aveludado que aquele da flauta doce? Foi até sua cidade natal, São Domingos, e voltou ao tempo de infância. Lembrou-se de que tocava, quando menino, em flauta feita de bambu. Tudo era muito artesanal, mas funcionava. Lembrou-se até do timbre, que havia ficado na sua memória.

Na fazenda de um tio nas redondezas de São Domingos, Jorge foi atrás de bambu nativo (conhecido na região como taboca). Trouxe, com ajuda da mulher e dos filhos, vários bambus. Em casa, num verdadeiro trabalho comunitário, cerrou, lixou, cortou, envernizou, decorou-o com uma massa especial, fazendo arte, e afinou-o no ouvido. Nem as mãos sangrando em decorrência dos calos lhe tiraram a alegria. O bambu virou um belo instrumento de sopro. E o som que sai dele é limpo, suave.

Em dois anos, Jorge já fabricou, na sua casa, mais de 100 flautas. Cada uma de uma forma, com um detalhe diferente. E toda vez que uma fica pronta – o que leva entre quatro e cinco dias – a família comemora. Egla, de 10 anos, a filha mais velha, acha o pai sensacional. É seu ídolo: “Ele é uma pessoa muito inteligente.” Haylla, 8, é sua companheira nas andanças. Leva-o para passear e aos compromissos. Michael, 5, o caçula, adora ouvir a música que sai daquele instrumento que ele também ajudou a fazer. Jacinta, que arruma a casa, cozinha e cuida de todos, é só alegria: “Tudo que ele faz é bem feito. No violão, não tem melhor”.

Obra patenteada
E Jorge toca. Deixa a emoção invadir sua mente. Canta Luar do Sertão. Embala os filhos com músicas sacras. Naquele barraco humilde de cimento queimado onde mora, no Gama, a poesia se fez hóspede. Até a vizinhança gosta da música que vem daquela casa. “É isso que me cura da depressão e dos momentos de tristeza”, reconhece.

A idéia agora é, para ajudar no sustento da família, vender as flautas. “As pessoas gostam, acham originais e diferentes”, diz. E ele está empolgado com a possibilidade de viver da arte que nasce do bambu. “Gostaria muito de patentear esse invento, mas não tenho dinheiro para isso. É muito caro”, desola-se. E atesta: “Existem flautas de bambu, mas iguais a essas, como esses detalhes que criei, nunca ‘vi’”, comenta, envaidecido.

Enquanto não patenteia sua obra, Jorge sonha. Acredita que o mundo pode ser melhor. Não guarda mágoa do homem que lhe atirou a pedra no olho e mudou sua vida para sempre. “Ele mora na mesma cidade, mas nunca teve coragem de falar comigo. Perdoei ele do fundo do meu coração.” Se pudesse voltar a enxergar por um minuto, o homem que confecciona flautas de bambu e produz música para alimentar a alma teria apenas um desejo: “Ver o rosto da minha mulher e dos meus três filhos”. Em seguida, emenda: “Mas eu conheço todos eles pelo tato e pela alma. Sei como é cada um deles. A cegueira me fez desenvolver a sensibilidade. Sou capaz de ‘ver’ a sinceridade de uma pessoa apenas pela voz”.

Naquela casa humilde no Gama, um homem cego encontrou na música o alívio para o sofrimento. Foi ao fundo do poço. Quis desistir da vida ainda menino. Para curar-se da depressão, adulto, inventou um instrumento. De bambu, num sopro, nasceu a música. Ela enche os pulmões. Atiça o coração. Emociona quem ouve. Jorge pode até não enxergar, mas sua vida, como mágica, foi invadida por um luz que está além da retina. Nem a perversa escuridão foi capaz de alterar o rumo dessa história.

SOM ARTESANAL
Jorge leva, em média, quatro a cinco dias para confeccionar uma flauta de bambu. Toda a família participa da criação. O instrumento é fabricado na própria casa onde mora. Contatos pelos telefones 3484-0085 e 8474-4545. Jorge também dá aulas de violão.

1 Comments:

Anonymous Anonymous said...

Meu caro irmão Oséias de Oliveira,em primeiro lugar gostaria de agradecer pelo telefonema agradavel na tarde de hoje e poder ter conversado com uma pessoa enterreçada em desprender tempo as causas sociais, tambem fico grato por divugar a minha materia o artesão das notas correio brasiliense do dia 16 de março de 2006,agradeço pelas suas palavras em nossa conversa.parabens pelo trabalho conte com nosso apoio que o Senhor te abençoe vc e sua familia jorge luis.o artesão das notas.

2:02 PM  

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