Friday, May 26, 2006

Adoção de Crianças com Necessidades Especiais

Adoção de Crianças com Necessidades Especiais - Matérias de Jornais e Revistas
Publicação: Revista Marie Claire
Circulação: Nacional
Data: 11/98
Repórter: Lúcia Cristina de Barros
Título: Síndrome do Espancamento


A casa de Maria Helena Santana, 55 anos, vive cheia. Ela e o marido, Benedito dos Santos, 77, ferroviário aposentado, moram em Itapetininga (SP) e têm 1 filhos, sendo seis adotivos. A caçula, Ane Caroline, chegou quando tinha quase 2 anos. A princípio, era uma estada temporária, até ela ser internada para tratar a coleção de problemas adquiridos em repetidas surras. Carol teve mais sorte: foi adotada.
O diagnóstico do primeiro médico que a examinou – "não andará; não falará" – provou ser mais fraco do que a força de vontade da família. Carol tem 4 anos de idade e idade mental de 1. Fala com dificuldade, mas se comunica. Ainda não anda sem ajuda, mas a mãe sabe que chegará lá.
"Na minha casa mora um anjo em forma de criança que nos ensina a humildade, a paciência e a vontade de viver. A Carol nasceu para gente no dia 26 de janeiro de 1996. Quando cheguei em casa com ela, foi um Deus nos acuda. Todo mundo se assustou com aquele bebê tão mau tratado. Fiquei com medo, chorei muitas noites.
Minha filha é uma vítima da síndrome de espancamento. Ela nasceu perfeita, mas apanhava e ficava sem tratamento. As fraturas calcificaram errado e os membros ficaram tortos. Ela respira com dificuldade porque aos 4 meses levou um murro do pai que quebrou o nariz e afundou a arcada dentária. Sem estimulação, as mãos atrofiaram. A desnutrição causou estrabismo. Ela tem queimaduras de cigarro no corpo, a orelha foi cortada com faca e a boca, com colher. Uma fenda no cérebro, causada por um tombo, levou a um retardamento mental.
Infelizmente a Carol não vai superar tudo. Mas avançamos muito. Quando ela chegou, era um bichinho acuado que tinha pavor quando a gente encostava. Ela sentia medo e dor. Fomos ganhando sua confiança, eu a punha perto do coração e dizia: ‘te amo, filhinha, a mamãe está aqui’. Até hoje ela dorme comigo e adora cafuné.
Vamos para a APAE todo dia. Faço fisioterapia na Carol enquanto o professor atende outras crianças. Ela não se sustenta sozinha mas tem vontade e fará cirurgias para melhorar. Já acorda dizendo: ‘andar, mamãe’.
A Carol é o xodó da família, tem muitas mães e pais. Não planejei nenhuma adoção. Meus filhos são presentes de Deus. Os mais velhos ajudam nas despesas, porque a Carol precisa de médicos. Estou atrás de uma madrinha dentista, pois os dentes dela estragaram com antibióticos. Minha filha me ensinou a viver. Eu era cardíaca, qualquer coisa pensava ‘estou morrendo’. Cuidando da Carol, tudo isso acabou.
Mas não foi fácil o processo de adoção. Os pais dela tinham sumido, então a Justiça foi procurar. Quando acharam, a mãe disse que tinha virado crente, estava arrependida e queria reaver a filha. Fiquei apavorada. Graças a Deus, uma avaliação destituiu o pátrio poder, mas o processo contra os pais pelos danos causados ao bebê foi arquivado por ‘falta de provas’. É incrível, porque a história da Carol foi levantada pelo fórum. Quando ela nasceu, o pai tinha 23 anos e a mãe, 15. Os dois brigavam por ciúmes e ele batia na mulher e na filha. Até que um dia, a mãe levou a Carol para a casa da avó com as duas pernas quebradas. A avó deixou-a num hospital e sumiu. Por que os causadores de tanto sofrimento estão livres? Meu marido não se conforma, quer que um advogado o ajude a fazer justiça e evitar outras desgraças – parece que o casal está esperando gêmeos.
Tento não pensar nisso. Graças a Deus minha filha está salva. Adoção é amor – um amor sofrido porque tanta criança precisa de colo. Mas nada se compara a ouvir um filho adotado chamá-la de ‘mãe’. É a maior prova de amor e de confiança que existe"
Extraído da matéria "Dossiê adoção" da revista Marie Claire – Ed. Globo – Ed. 92 – novembro de 1998

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